
Eu queria ser a Clarice Lispector. A reencarnação dela! E escrever daquele jeito sobre mim que ela escrevia sobre ela.
Pois é, porque hoje eu sou a Clarice. Sozinha, amarga, amante, ácida. Com um sofisticado sarcasmo, mas ácida.
Eu sou tão honesta comigo hoje que melhor seria se fosse outra, porque não sei se posso com minha verdade.
Sou tão eu mesma que quase consigo me transformar em linha, agulha e pano pra construir minha própria fantasia e virar a "mulher maravilha".
Eu sou tão medíocre que prefiro ser outra.
Tão decadente, tão mentirosa e invejosa.
Ah sim, porque eu descobri meu fascinante talento para a inveja. Posso olhar alguém e odiar em segundos só pelo fato de ser melhor que eu.
Por isso me tranco, porque hoje todo mundo é melhor que eu.
Então não me olhe, não se apresente a mim porque sou a pior das companhias.
Sou a margem da sociedade, aquela que tem fadiga e enfado por ter nascido.
Ah, que horror ter nascido.
Ando fazendo um esforço tremendo pra não ser bem quista, nem viver, porque viver dá um trabalho sufocante.
Minha preferência era por ser anjo.
Eu poderia ser anjo lá em cima e ficar dando aquele "help" pro povo aqui de baixo.
Mas nasci. Pois é, alguém me pariu e parece que também não gostou muito disso, porque o que eu já ouvi de reclamação, é incontável.
Então, hoje eu sou Clarice, com todas aquelas frase da Clarice, todo aquele jeito da Clarice e, principalmente aquele olhar, ah... A Clarice tinha aquele olhar, revestido de um impecável lápis preto, aquele olhar de superioridade, mas não sobre os outros, porque ela sabia que tava longe disso. Era um olhar que mostrava ser ela superior aos seus próprios defeitos, sua má sorte com o amor, sua má sorte em colocar o coração nas coisas. Aquele olhar era tão superior que chamava atenção, causava arrepio, causava admiração.
Por isso hoje eu sou Clarice, com aquele olhar.
Me revesti de Clarice pra poder falar, me xingar, me tolerar, me respeitar, assumir que sou um fracasso, um poço de preguiça e moleza. Assumir que estou morta em plena vida, enxergar que não sou nada.
Mas hoje, meu nada, eu batizei de Clarice.
Mascarada