Ela olhou a chuva pela janela e pensou que talvez todo o vazio que sentia pudesse sumir com as gotas e os trovões.
Viu que a força da água arrastava tudo que tentasse interromper seu caminho então vislumbrou a possibilidade de colocar seus problemas diante dela.
Chovia de dar medo, de não querer sair debaixo das cobertas.
Chovia de tremer o teto, chovia pra lavar a alma.
E se alguém no céu se sentia com a alma lavada devia ser muito egoísta pra não partilhar essa sensação com mais ninguém.
Lavar a alma é tudo que ela precisa. Então, disfarçando o medo de si mesma, jogou o cobertor e se pôs diante da janela, observando a tempestade.
Cada trovão, cada clarão era como se algo nela forçasse pra não ser mais escondido.
Com a chuva e todo aquele escândalo da natureza ela podia falar, ser livre ao menos uma vez.
A chuva era sua capa, seu escudo, sua maior proteção. Ninguém desafiaria aquela tormenta natural. Ela estava só e tinha o poder da própria libertação.
Todos se esquivavam do barulho e da força da chuva enquanto ela vivia o maior e único momento de coragem de toda sua vida.
Ela tinha a chuva como sua arma, nada seria mais forte que ela munida da chuva.
As grades de sua janela a intimidavam e por isso foi para o quintal, e junto com a água disse com todo seu potencial o nome mais importante de sua vida.
Ela podia falar, podia soltar o que sentia, podia contar pra quem quisesse ouvir e assim o fez. Mas ninguém ouviu, porque todos se escondiam da chuva. Ninguém reagiu, ninguém a pôs pra baixo, ninguém disse que era impossível, nada foi dito.
Então ela retornou ao seu recanto e dormiu o primeiro sono sem pesadelos.
Na manhã seguinte o céu já era azul, claro e limpo. Todos falavam da chuva quando ela apareceu. A reação foi unânime. Estava diferente, segura, leve... O que poderia ter acontecido? Agora, ela não dava satisfações. Não precisava de desculpas, tampouco de mentiras. Ela lavou a alma longe dos olhos que a impediam e diante deles ressurgia de uma vez por todas com a diferença que mudaria surpreendentemente o rumo de toda sua história.
Mascarada

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