
Eu não consigo. Cada fagulha do que poderia ser uma idéia insiste em correr assustada de mim. Eu não posso. Não dá! Eu quero, ando tentando (odeio gerúndios). Perseverante sigo, mas caio. Não há letra que se encaixe em palavra e consiga encontrar algumas outras para formar uma frase, eu simplesmente não escrevo mais.
Só retalho!
Exatamente, só retalho.
Coisa solta, maluca, sem pé, cabeça, sem eira ou beira. É só retalho!
Se soubesse costurar faria uma colcha, juro!
Porque uma das poucas coisas sem combinação que vejo, conheço e admiro é a tal da colcha de retalhos.
Pessoas, desconhecidas ou não, juntam quadrados que só se combinam no tamanho. Cada um com a cor que der na telha do costureiro, com o tema que ele quiser e, aquilo tudo junto, vira um obra de arte.
Isso, uma obra de arte de verdade. Eu acho lindas as colchas de retalhos... já vi umas que contavam histórias. Os quadradinhos traziam vidas inteiras bordadas e por mais incrível e inacreditável que isso possa parecer, toda aquela mistura junta combina quando os quadrados são encaixados. E só serve se tiver tudo junto porque um quadrado só não esquenta ninguém, não dá nem pra secar as mãos.
Então precisa que tudo esteja junto, que as histórias, os temas, os desenhos, as cores, estejam juntas e se encontrem ao bel prazer da escolha de quem for unir as peças.
Se você está só e um outro solitário bordar um quadrado, pode ser que se unam através do acaso pelas mãos de uma bordadeira que se transforma em uma grande tecelã de destinos ao montar a colcha.
Será que alguém pode encontrar um grande amor através da união de quadrados da colcha de retalhos?
Bem, isso eu já não sei. Mas sei que os retalhos da colcha são a maior obra de arte oriunda da falta de combinação que eu já vi em toda minha vida. A mistura que dá certo. Sem tema combinado, armado, tramado, só vidas, mesmo que todas as vidas tenham de bordar sobre a mesma coisa. São só vidas, unidas pelos panos de uma colcha que vai servir de quentura pra outro alguém... Desconhecido, que não bordou, não uniu, mas pagou.
Pagou por histórias bordadas de vidas inteiras. Pagou e ainda teve desconto porque foi a vista. Afinal, se é a vida dos outros, pra muitos, vale o preço que se pode e quer pagar. Mas... e se a vida do pagante tivesse bordada? Quem sabe por quanto ele venderia? Quem sabe se venderia, ou se apenas doaria? Ou se limitar-se-ia apenas a escrever, sem muita prática, ou inspiração, como essa que hoje escreve, com mãos e mente vazias de idéias, mas sempre com um coração insistente em batidas que dispensam motivação.
Mascarada
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Imagem retirada de: http://paginas.terra.com.br/educacao/emac/educacaoartistca.htm

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